Resumo
A autoria na publicação acadêmica é muito mais do que uma questão de quem aparece como autor em um artigo. Está intimamente ligada à reputação acadêmica, responsabilidade, integridade da pesquisa e progressão na carreira. Diretrizes claras de autoria — como as emitidas pelo International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE), pelo Committee on Publication Ethics (COPE) e pelo framework CRediT (Contributor Roles Taxonomy) — ajudam a determinar quem realmente se qualifica como autor e quem deve ser reconhecido como colaborador.
Este artigo explica como os critérios de autoria amplamente usados funcionam na prática, por que práticas como autoria de convidado, fantasma e honorária são consideradas má conduta acadêmica, e como papéis como primeiro, correspondente e último autor são tipicamente entendidos em diferentes disciplinas. Também explora questões emergentes sobre conteúdo gerado por IA e por que ferramentas como ChatGPT ou outros sistemas de IA não podem ser listados como autores, mesmo quando auxiliam na redação de texto ou análise de dados.
Finalmente, o artigo apresenta melhores práticas práticas para equipes de pesquisa: discutir autoria cedo, documentar contribuições, seguir políticas específicas de periódicos, resolver disputas profissionalmente e reconhecer corretamente colaboradores não autores. Aplicando esses princípios, os pesquisadores podem alocar crédito de forma justa, evitar armadilhas éticas comuns e demonstrar transparência e profissionalismo em suas publicações.
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Entendendo as Diretrizes de Autoria: Quem Merece Crédito?
Introdução
Para muitos pesquisadores, a autoria é o reconhecimento mais visível de sua contribuição para um projeto. Um nome em um artigo publicado pode influenciar decisões de contratação, casos de promoção, pedidos de bolsas e reputação profissional. Ao mesmo tempo, a autoria também traz responsabilidades sérias: espera-se que os autores apoiem a precisão, integridade e a ética do trabalho.
Como a pesquisa é cada vez mais colaborativa — frequentemente envolvendo grandes equipes multidisciplinares espalhadas por diferentes instituições — a questão de quem merece autoria tornou-se mais complicada. Desacordos sobre a ordem dos autores, inclusão ou exclusão de colaboradores, e o uso crescente de ferramentas de IA na escrita e análise tornaram este um tema sensível. Para enfrentar esses desafios, organizações internacionais e editoras desenvolveram diretrizes detalhadas de autoria.
Este artigo explica os principais frameworks de autoria usados na publicação acadêmica, explora problemas éticos comuns como autoria de convidado e fantasma, esclarece como papéis como primeiro e autor correspondente são tipicamente interpretados, e oferece orientações práticas sobre como equipes de pesquisa podem tomar decisões de autoria justas e transparentes.
1. O que são Diretrizes de Autoria?
Diretrizes de autoria são critérios formais e recomendações que definem quem qualifica como autor de um trabalho acadêmico e quais responsabilidades esses autores têm. Elas são projetadas para garantir que o crédito seja alocado de forma justa, que os leitores saibam quem é responsável pela pesquisa e que práticas antiéticas sejam desencorajadas.
Várias organizações desempenharam um papel central na formação dos padrões atuais:
- ICMJE (International Committee of Medical Journal Editors): principalmente influente em pesquisas biomédicas e clínicas, mas amplamente referenciado além da medicina.
- COPE (Committee on Publication Ethics): fornece orientações mais amplas sobre ética na publicação, incluindo autoria, conflitos de interesse e má conduta.
- CRediT (Contributor Roles Taxonomy): uma forma estruturada de descrever os papéis específicos que cada autor desempenhou em um estudo.
1.1 Os Quatro Critérios do ICMJE para Autoria
O ICMJE recomenda que um indivíduo seja listado como autor somente se atender a todos os quatro dos seguintes critérios:
- Contribuição substancial: Eles contribuíram significativamente para a concepção ou design do trabalho, ou para a aquisição, análise ou interpretação dos dados.
- Elaboração ou revisão do manuscrito: Eles participaram da redação do artigo ou fizeram revisões intelectuais críticas.
- Aprovação final: Eles revisaram e aprovaram a versão final do manuscrito antes da submissão.
- Responsabilidade: Eles concordam em ser responsáveis por suas contribuições e em ajudar a resolver quaisquer questões relacionadas à precisão ou integridade.
Indivíduos que auxiliam na coleta de dados, fornecem ajuda técnica rotineira ou oferecem supervisão geral — mas não atendem a todos os quatro critérios — devem ser nomeados nos Agradecimentos em vez de serem listados como autores.
1.2 COPE e o Contexto Ético Mais Amplo
COPE não prescreve um único conjunto de critérios de autoria, mas enfatiza transparência, honestidade e boa comunicação. Incentiva periódicos e instituições a definirem claramente suas próprias políticas de autoria e a garantir que disputas sejam tratadas de forma justa. COPE também fornece orientações para editores sobre como responder quando surgem problemas de autoria, por exemplo, quando um colaborador anteriormente omitido reivindica que deveria ter sido incluído.
1.3 CRediT: Descrevendo Quem Fez o Quê
O Contributor Roles Taxonomy (CRediT) oferece um vocabulário estruturado para descrever aspectos específicos do papel de um colaborador. Categorias comuns do CRediT incluem:
- Conceituação
- Metodologia
- Software
- Validação
- Análise Formal
- Investigação
- Curadoria de Dados
- Redação – Rascunho Original
- Redação – Revisão & Edição
- Supervisão
- Administração do Projeto
- Aquisição de Financiamento
Muitos periódicos agora exigem uma declaração de contribuição no estilo CRediT, que ajuda a evitar mal-entendidos e torna as contribuições individuais mais transparentes.
2. Práticas de Autoria Não Éticas e Disputas Comuns
2.1 Autoria Convidada, Fantasma e Honorária
Algumas das práticas de autoria mais problemáticas tornaram-se familiares o suficiente para adquirir rótulos padrão:
- Autoria convidada: incluir um pesquisador conhecido ou colega sênior para tornar um artigo mais impressionante, mesmo que sua contribuição tenha sido mínima ou simbólica.
- Autoria fantasma: deixar de listar indivíduos que fizeram contribuições substanciais, por exemplo pesquisadores juniores, escritores profissionais ou estatísticos.
- Autoria honorária ou de presente: nomear alguém—frequentemente um chefe de departamento ou supervisor sênior—por respeito ou tradição, e não porque atendeu aos critérios de autoria.
Essas práticas deturpam os verdadeiros contribuintes e são amplamente consideradas formas de má conduta acadêmica. Elas também podem complicar a responsabilização: se algo estiver errado com os dados ou análise, quem é o responsável?
2.2 Discordâncias Sobre Contribuição e Ordem dos Autores
Em projetos colaborativos, frequentemente surgem discordâncias sobre quem deve ser incluído como autor e em qual posição. Fontes comuns de tensão incluem:
- Percepções diferentes sobre o que conta como uma contribuição “substancial”.
- Expectativas conflitantes entre membros seniores e juniores da equipe.
- Mudanças de última hora no escopo do projeto que alteram quem fez o quê.
Sem um acordo claro e precoce sobre papéis e critérios de autoria, essas disputas podem surgir apenas no momento da submissão — precisamente quando os prazos e a pressão estão no auge.
2.3 Conteúdo Gerado por IA e Por Que a IA Não Pode Ser um Autor
O uso generalizado de ferramentas de IA, como grandes modelos de linguagem e geradores automáticos de imagens ou dados, adicionou uma nova dimensão às discussões sobre autoria. Embora a IA possa ajudar na redação, edição, resumo da literatura ou sugestão de melhorias linguísticas, ela não pode atender aos critérios centrais de autoria: não assume responsabilidade, não pode dar consentimento informado e não pode ser responsabilizada se ocorrerem erros ou má conduta.
Por essas razões, muitas revistas afirmam explicitamente que sistemas de IA não podem ser listados como autores. Em vez disso, os pesquisadores devem divulgar qualquer uso de IA nos métodos, agradecimentos ou em uma seção dedicada “Uso de IA pelo Autor”, conforme as políticas da revista.
3. Compreendendo os Papéis dos Autores: Primeiro, Correspondente e Último Autor
3.1 Primeiro Autor
O primeiro autor geralmente é o pesquisador que fez a maior contribuição geral para o projeto. Isso frequentemente inclui projetar o estudo, realizar experimentos ou coleta de dados e redigir a versão inicial do manuscrito. Em muitas disciplinas, a posição de primeiro autor é especialmente importante para pesquisadores em início de carreira ao se candidatar a empregos ou bolsas.
3.2 Autor Correspondente
O autor correspondente é a principal pessoa de contato para a revista e para os leitores após a publicação. Suas responsabilidades normalmente incluem:
- Submeter o manuscrito e gerenciar o processo de revisão.
- Garantir que todos os coautores aprovem cada versão do manuscrito e o documento final submetido.
- Lidar com consultas de editores, revisores e leitores após a publicação.
Em alguns casos, o autor correspondente também é o primeiro autor; em outros, é um membro sênior da equipe com detalhes de contato institucional estáveis.
3.3 Último Autor, Autor Sênior e Co-Primeira Autoria
Em muitos campos STEM, a posição de último autor está associada ao pesquisador sênior ou investigador principal que liderou e supervisionou o projeto. Essa pessoa pode ter garantido financiamento, fornecido a direção geral da pesquisa e apoiado o trabalho dos pesquisadores juniores.
Algumas equipes também designam co-primeiros autores quando duas ou mais pessoas contribuíram igualmente. As revistas podem permitir uma nota de rodapé como “Estes autores contribuíram igualmente para este trabalho”. Quando isso é usado, deve refletir paridade genuína na contribuição, não apenas um compromisso em uma disputa.
4. Melhores Práticas para Atribuição de Autoria
4.1 Discutir a Autoria Cedo e Revisitar Conforme Necessário
Uma das maneiras mais eficazes de prevenir conflitos é discutir a autoria no início de um projeto. As equipes de pesquisa devem esclarecer:
- Quem provavelmente será um autor e por quê.
- Como a ordem dos autores será decidida (por exemplo, baseada na contribuição, alfabética ou uma combinação).
- Como novos colaboradores serão adicionados ou papéis atualizados conforme o projeto evolui.
Como os projetos mudam ao longo do tempo, essas discussões devem ser revisitadas periodicamente, especialmente após mudanças significativas no escopo ou na equipe.
4.2 Documentar Contribuições Durante Todo o Projeto
Manter um registro escrito de quem contribuiu com o quê pode ser extremamente útil. Estratégias simples incluem:
- Usar registros de contribuição ou planilhas onde as tarefas são atribuídas e acompanhadas.
- Alinhar tarefas com funções CRediT para que as declarações finais de contribuição sejam fáceis de preparar.
- Registrar decisões-chave sobre autoria em atas de reuniões ou em threads de e-mail.
Essa documentação pode prevenir mal-entendidos e apoiar decisões justas caso ocorram desacordos posteriormente.
4.3 Seguir as Políticas de Autoria Específicas do Periódico
Embora diretrizes gerais como ICMJE e COPE sejam influentes, periódicos individuais frequentemente têm suas próprias políticas de autoria. Antes da submissão, é essencial:
- Ler atentamente as instruções para autores do periódico.
- Preparar quaisquer declarações de contribuição ou formulários de autoria necessários.
- Garantir que todos os autores listados concordem com a forma como seu papel é descrito.
4.4 Garantir Práticas Éticas e Usar Mediação Quando Necessário
A autoria ética envolve tanto incluir todos os colaboradores que atendem aos critérios quanto excluir aqueles que não atendem. Se surgirem disputas, os passos possíveis incluem:
- Discutir preocupações abertamente dentro da equipe de pesquisa.
- Buscar aconselhamento de um colega sênior ou mentor neutro.
- Solicitar mediação de um escritório institucional de ética ou integridade em pesquisa.
Os editores também podem se envolver se surgir uma disputa durante ou após a revisão por pares, mas a maioria prefere que as instituições assumam a responsabilidade principal pela resolução de desacordos internos.
4.5 Reconheça Adequadamente os Contribuintes Não Autores
Muitas pessoas contribuem para um projeto sem atender aos critérios completos de autoria — como técnicos de laboratório, editores de idioma, estatísticos que fornecem suporte rotineiro ou serviços profissionais de revisão. Eles devem ser reconhecidos na seção de Agradecimentos, com sua permissão. Essa abordagem dá crédito onde é devido sem diluir o significado da autoria.
5. Revistas, Políticas e Expectativas em Evolução
5.1 Alinhamento com ICMJE e COPE
Grandes editoras como Elsevier, Springer Nature, Wiley e muitas revistas de sociedades baseiam suas políticas nos princípios do ICMJE e COPE. Elas frequentemente exigem que:
- Todos os autores confirmam que atendem aos critérios de autoria.
- Um autor correspondente assume a responsabilidade pela comunicação.
- Quaisquer alterações na autoria (adições, remoções, alterações na ordem) após a submissão são justificadas e aprovadas por todos os autores.
5.2 Adoção do CRediT e Declarações de Contribuição
Para aumentar a transparência, um número crescente de revistas solicita declarações detalhadas de contribuição baseadas no CRediT. Isso não apenas esclarece quem fez o quê, mas também ajuda avaliadores (como comitês de contratação) a entender o papel do pesquisador além da ordem dos nomes.
5.3 Lidando com Conduta Indevida na Autoria
Quando práticas antiéticas de autoria vêm à tona — como a omissão de um colaborador legítimo ou a adição de um autor convidado — as revistas podem emitir correções, expressões de preocupação ou retratações, dependendo da gravidade. Instituições também podem investigar e impor sanções. Isso ressalta a importância de acertar a autoria desde o início.
6. Cenários Práticos e Como Lidá-los
6.1 O “Colega Útil”
Um colega oferece alguns comentários útis sobre um rascunho ou sugere uma referência. Embora sua ajuda seja apreciada, geralmente não atinge o limiar para autoria. Um breve reconhecimento é frequentemente a forma mais apropriada de reconhecimento.
6.2 O Supervisor Sênior com Participação Limitada
Em alguns ambientes, espera-se que o chefe de laboratório ou o coordenador do departamento seja listado como autor em todos os artigos de seu grupo. Se sua participação se limitar a fornecer supervisão geral ou recursos, isso pode não satisfazer os critérios de autoria. Discussão aberta, apoiada por diretrizes institucionais, pode ajudar a garantir que figuras seniores sejam listadas como autores apenas quando suas contribuições forem substanciais.
6.3 Edição e Revisão Profissionais
Serviços profissionais de edição e revisão podem melhorar substancialmente a clareza, a linguagem e a formatação. No entanto, geralmente não conceituam a pesquisa, projetam métodos ou interpretam resultados. Na maioria dos casos, portanto, não se qualificam para autoria, mas podem ser reconhecidos se as políticas e contratos da revista permitirem. Essa distinção é importante em um momento em que universidades e editoras monitoram de perto o uso de IA e enfatizam o valor da experiência humana e responsável.
Conclusão
A autoria é uma forma poderosa de moeda acadêmica, mas deve refletir contribuições intelectuais e práticas genuínas para a pesquisa — não hierarquia, hábito ou conveniência. Seguindo diretrizes estabelecidas como as do ICMJE, COPE e CRediT; conversando abertamente sobre expectativas; e documentando contribuições ao longo de um projeto, os pesquisadores podem tomar decisões mais justas e transparentes sobre quem merece crédito.
Práticas claras de autoria protegem tanto indivíduos quanto instituições. Elas sinalizam respeito pelos colegas, fortalecem a confiança no trabalho publicado e apoiam a integridade a longo prazo do registro acadêmico. Em um ambiente de pesquisa cada vez mais moldado pela colaboração, ciência aberta e ferramentas de IA, a atenção cuidadosa à autoria não é apenas uma formalidade — é uma parte central da prática responsável de pesquisa.
Leitura Adicional
Se você gostaria de explorar aspectos relacionados à ética em pesquisa e publicação acadêmica, os seguintes recursos podem ser úteis:
- ICMJE 2025: Principais Mudanças em Autoria, Uso de IA e Publicação Ética – Uma visão geral dos requisitos em evolução para autoria e divulgação de IA.
- Como Editores Podem Detectar e Abordar o Plágio em Manuscritos de Pesquisa – Orientações sobre detecção e prevenção de plágio.
- IA na Revisão por Pares: Melhorando a Precisão, Reduzindo o Viés e Aumentando a Eficiência – Uma discussão sobre os benefícios e riscos da revisão por pares assistida por IA.
- Evitando Publicações Duplicadas: Por Que o Auto-Plágio Prejudica a Pesquisa – Explica como o auto-plágio pode prejudicar a credibilidade e o registro acadêmico.
- Navegando pelo Processo de Revisão por Pares: Diferentes Tipos e Seu Impacto na Pesquisa – Uma introdução aos modelos de revisão por pares e o que os autores podem esperar.
Juntos, esses recursos podem ajudar os pesquisadores a construir uma compreensão mais profunda sobre autoria responsável, publicação ética e o ecossistema mais amplo no qual seu trabalho será avaliado e lido.